Entre Leituras e Promessas

Entre Leituras e Promessas

A celebração do matrimónio é feita de gestos, símbolos e palavras. Entre essas palavras, as leituras bíblicas ocupam um lugar especial, porque nos permitem escutar a forma como Deus fala ao coração daqueles que O procuram.
Ao preparar esta celebração, procurámos textos que não fossem apenas bonitos ou conhecidos, mas que expressassem aquilo em que acreditamos e aquilo que desejamos viver ao longo da nossa vida matrimonial.
Curiosamente, as leituras que escolhemos não apresentam uma visão idealizada do amor. Pelo contrário, mostram-nos um amor real: construído na amizade, fortalecido pela presença de Deus, amadurecido através da entrega e chamado a transformar a vida dos que o vivem.
Lidas em conjunto, estas passagens formam quase um único percurso espiritual. Começam por mostrar a força da caminhada partilhada, recordam-nos que só Deus pode preencher plenamente o coração humano, revelam a natureza do verdadeiro amor e culminam num casamento onde a presença de Cristo transforma aquilo que é comum em algo extraordinário.


Primeira Leitura: Leitura do Livro de Eclesiastes (Ecl 4:9-12)

Dois Caminham Melhor do que Um

"É melhor dois do que um só:
tirarão melhor proveito do seu esforço.
Se caírem, um ergue o seu companheiro.
Mas ai do solitário que cai:
não tem outro para o levantar!
E se dormirem dois juntos, dormem quentes;
mas se alguém está só, como se há de aquecer?
Se um só é oprimido, dois já conseguem resistir a isso;
o cordel dobrado em três não se parte facilmente.”

O Livro de Eclesiastes é um dos grandes livros sapienciais da Bíblia. O seu autor observa a vida humana com realismo e procura responder às perguntas fundamentais da existência. Ao contrário de outros textos bíblicos, não apresenta grandes feitos heroicos ou acontecimentos extraordinários. Fala antes da vida concreta: do trabalho, da amizade, das dificuldades e da necessidade que temos uns dos outros.
É neste contexto que surge esta passagem.
Originalmente, o texto não fala do amor entre um homem e uma mulher, mas do valor da amizade e da companhia. O autor reconhece que a vida se torna mais difícil quando tentamos vivê-la sozinhos. Dois conseguem ajudar-se mutuamente, apoiar-se nas quedas, proteger-se nos momentos de fragilidade e enfrentar unidos os desafios que a vida inevitavelmente apresenta.
A tradição cristã viu neste texto uma imagem particularmente bela do matrimónio. O casal é chamado a viver precisamente esta experiência: apoiar-se, erguer-se mutuamente e caminhar lado a lado em todas as circunstâncias.
Mas o versículo final acrescenta algo ainda mais profundo: o cordel não é formado por duas dobras, mas por três. Para os cristãos, essa terceira dobra representa Deus. Não como um simples observador distante, mas como presença viva que fortalece, sustenta e une.
O matrimónio não é, por isso, apenas uma história de dois protagonistas. É uma vocação vivida a três.


Salmo Responsorial

Uma Sede que Só Deus Pode Saciar

Refrão (x2):
Tu meu Deus a quem busco
sede de ti tenho na alma
qual terra seca, qual terra seca sem água

Porque o Teu amor é melhor que a vida
meus lábios querem cantar para Ti
e assim quero com a vida bem dizer-Te
e levantar as mãos abertas para Ti

Refrão

Quantas vezes de noite quando o sono se vai penso em Ti.
e tranquilo me encontro à Tua sombra
como uma criança minha alma se aperta contra Ti
e segura a Tua mão me sustém.

Refrão

Uma só coisa Te peço, Senhor, uma coisa estou buscando:
viver em Tua casa para sempre e conhecer-Te.
Tu sabes quem eu sou. Tu sabes o que eu tenho, o que eu anseio,
o que eu não sou, o que eu não tenho.

Refrão

Depois de nos apresentar a beleza da companhia humana, a liturgia conduz-nos para uma segunda verdade: o coração humano anseia por algo que nenhuma pessoa, por mais amada que seja, consegue preencher totalmente.
O salmista utiliza uma imagem muito bela: a da terra seca que espera pela chuva. Assim como a terra necessita de água para dar fruto, também o ser humano necessita de Deus para encontrar a sua plenitude.
Este salmo recorda-nos uma realidade importante para qualquer casal cristão. Nenhum esposo pode ocupar o lugar de Deus na vida do outro. Nenhum amor humano é capaz de satisfazer completamente os desejos mais profundos do coração.
Quando se espera tudo do outro, o amor acaba muitas vezes por se tornar pesado. Quando Deus ocupa o primeiro lugar, os esposos tornam-se livres para amar sem possuir, para servir sem exigir e para acolher as limitações um do outro.
Por isso, este salmo ajuda-nos a compreender que o cordel de três dobras não é apenas uma bela imagem. É uma necessidade espiritual. O amor humano floresce quando permanece ligado à fonte do Amor.


Segunda Leitura: Leitura da Primeira Carta de S. Paulo aos Coríntios (1Cor 13:1-13)

O Amor que Se Aprende Todos os Dias

“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos,
se não tiver caridade, sou como um bronze que soa
ou um címbalo que retine.
Ainda que eu tenha o dom da profecia
e conheça todos os mistérios e toda a ciência,
ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas,
se não tiver caridade, nada sou.
Ainda que eu distribua todos os meus bens
e entregue o meu corpo para ser queimado,
se não tiver caridade, de nada me vale.

A caridade é paciente,
a caridade é prestável,
não é invejosa,
não é arrogante nem orgulhosa,
nada faz de inconveniente,
não procura o seu próprio interesse,
não se irrita nem guarda ressentimento.
Não se alegra com a injustiça,
mas rejubila com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê,
tudo espera, tudo suporta.

A caridade jamais passará.
As profecias terão o seu fim,
o dom das línguas terminará
e a ciência vai ser inútil.
Pois o nosso conhecimento é imperfeito
e também imperfeita é a nossa profecia.
Mas, quando vier o que é perfeito,
o que é imperfeito desaparecerá.
Quando eu era criança,
falava como criança,
pensava como criança,
raciocinava como criança.
Mas, quando me tornei homem,
deixei o que era próprio de criança.

Agora, vemos como num espelho,
de maneira confusa;
depois, veremos face a face.
Agora, conheço de modo imperfeito;
depois, conhecerei como sou conhecido.
Agora permanecem estas três coisas:
a fé, a esperança e a caridade;
mas a maior de todas é a caridade.”

Se existe um texto frequentemente associado aos casamentos, é este.
Contudo, São Paulo não escreveu estas palavras para uma cerimónia matrimonial. Escreveu-as para corrigir divisões e conflitos existentes na comunidade cristã de Corinto. O apóstolo queria recordar que todos os dons, talentos e capacidades perdem o seu valor quando não são colocados ao serviço do amor.
O termo utilizado por São Paulo não é amor romântico, mas caridade (agape), isto é, um amor que procura o bem do outro antes do seu próprio interesse.
Por isso, este texto funciona quase como uma escola de matrimónio.
O amor verdadeiro é paciente quando o outro falha.
É prestável quando o outro precisa.
Não procura vencer discussões nem colecionar razões.
Não guarda listas de ofensas nem alimenta ressentimentos.
Aprende a perdoar, a recomeçar e a acreditar novamente.
São Paulo não descreve sentimentos. Descreve escolhas.
Num casamento haverá dias de entusiasmo e dias difíceis. Haverá momentos de grande alegria e outros de maior fragilidade. O que sustenta a relação não é apenas a emoção dos primeiros tempos, mas a decisão diária de amar como Cristo amou.
É por isso que a caridade "jamais passará". Porque se fundamenta não apenas na vontade humana, mas na graça de Deus.


Evangelho - Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 2:1-11)

O Melhor Vinho Está Ainda Para Vir

Ao terceiro dia, celebrava-se uma boda em Caná da Galileia e a mãe de Jesus estava lá. Jesus e os seus discípulos também foram convidados para a boda. Como viesse a faltar o vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: «Não têm vinho!»
Jesus respondeu-lhe: «Mulher, que tem isso a ver contigo e comigo? Ainda não chegou a minha hora.»
Sua mãe disse aos serventes: «Fazei o que Ele vos disser!»
Ora, havia ali seis vasilhas de pedra preparadas para os ritos de purificação dos judeus, com capacidade de duas ou três medidas cada uma. Disse-lhes Jesus: «Enchei as vasilhas de água.» Eles encheram-nas até acima. Então ordenou-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa.»
E eles assim fizeram. O chefe de mesa provou a água transformada em vinho, sem saber de onde era – se bem que o soubessem os serventes que tinham tirado a água; chamou o noivo e disse-lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho melhor e, depois de terem bebido bem, é que serve o pior. Tu, porém, guardaste o melhor vinho até agora!»
Assim, em Caná da Galileia, Jesus realizou o primeiro dos seus sinais miraculosos, com o qual manifestou a sua glória, e os discípulos creram nele.

Depois de escutarmos o convite à caminhada a dois, a sede de Deus presente no coração humano e a descrição do verdadeiro amor feita por São Paulo, chegamos ao Evangelho.
Não é por acaso que o primeiro sinal público realizado por Jesus acontece precisamente num casamento.
Ao longo da história da salvação, Deus utilizou frequentemente a imagem das núpcias para falar da sua relação com a humanidade. Em Caná da Galileia, Cristo não surge como um convidado distante. Participa na festa, acompanha os esposos e intervém quando surge a necessidade.
A primeira personagem que nos chama a atenção é Maria. É ela quem percebe que falta o vinho. Antes de qualquer pedido explícito, a Mãe de Jesus vê uma dificuldade que passa despercebida à maioria das pessoas. Depois, pronuncia aquelas que são talvez as palavras mais importantes de todo o relato:
"Fazei o que Ele vos disser."
Estas palavras constituem um verdadeiro programa de vida cristã e matrimonial.
Ao longo da vida, todos os casais atravessam momentos de abundância e momentos de escassez. Existem dias em que tudo parece simples e outros em que faltam forças, paciência, compreensão ou esperança. O Evangelho não promete que essas dificuldades não existam. Mostra-nos algo mais importante: Cristo permanece presente no meio delas.
O milagre da transformação da água em vinho é mais do que um gesto de generosidade para com os noivos. É um sinal de que Deus tem a capacidade de transformar a realidade humana e de levar aquilo que é bom a uma plenitude ainda maior.
Por isso, a tradição cristã sempre viu neste episódio uma imagem do matrimónio. Dois esposos apresentam a Deus a sua realidade concreta — com as suas qualidades, limitações, sonhos e fragilidades — e Deus transforma essa oferta através da sua graça.
Tal como a água se transforma em vinho, o amor humano é chamado a transformar-se em algo maior: mais fiel, mais profundo, mais generoso e mais semelhante ao amor de Cristo.
Há ainda um detalhe que nos toca particularmente. O chefe do banquete afirma que o melhor vinho foi guardado para o fim.
Num mundo que tantas vezes apresenta o casamento como o final de uma história de amor, este Evangelho recorda-nos exatamente o contrário. O matrimónio não é um ponto de chegada. É um ponto de partida.
O melhor ainda está para vir.
Ao escolhermos este Evangelho, queremos confiar o nosso casamento à presença de Cristo e de Maria. Tal como estiveram presentes nas bodas de Caná, pedimos que estejam também presentes na nossa vida. Que nos ajudem a reconhecer as nossas necessidades, a escutar a vontade de Deus e a acreditar que a sua graça continua a transformar aquilo que lhe entregamos.


Uma Só Mensagem, Uma Só História

Quando preparámos estas leituras, percebemos que, apesar de terem sido escritas por autores diferentes, em épocas diferentes e para contextos diferentes, todas contam a mesma história.
O Eclesiastes ensina-nos que ninguém foi criado para caminhar sozinho.
O Salmo recorda-nos que o coração humano tem sede de Deus.
São Paulo mostra-nos como é o verdadeiro amor.
E o Evangelho de Caná revela-nos que esse amor encontra a sua plenitude quando Cristo está presente no centro da relação.
Juntas, estas leituras falam de amizade, de companheirismo, de entrega, de fidelidade e de comunhão com Deus. Mostram-nos que o matrimónio não é apenas uma parceria humana nem apenas um sentimento passageiro. É uma vocação para caminhar juntos, sustentados por Aquele que é a fonte de todo o amor.
Por isso as escolhemos.
Porque, lidas como um único texto, contam exatamente a história que desejamos viver: um homem e uma mulher que caminham lado a lado, aprendendo todos os dias a amar, confiando a Deus as suas alegrias e dificuldades, e permitindo que Cristo transforme continuamente a sua vida em comum.
E porque acreditamos que, quando Deus ocupa a terceira dobra do cordel, o melhor vinho está sempre por chegar.

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